Selo de gestão de qualidade ISO 2020... diferenças do ISO 9001

Conhecendo o Selo de gestão de qualidade 9001 2020.

Nas frases que tem aparecido nos atendimentos em psicologia do trabalho e psicologia clínica, surgem sintomas de preocupação com a manutenção da qualidade no trabalho, no estudo, no maternar e paternar... 

"Não consigo produzir como antes."
"Minha concentração reduziu, oscila."
"Parece que a memória está 'bugada'"
"Sou constantemente interrompida pelas crianças." 
"Minhas aulas não tem a mesma qualidade que eu tinha na presencial."
"Não tenho aquela paciência que eu tinha com as crianças."

... e tantas outras frases que poderiam compor esse rol de diálogos iniciados desde as mudanças que a pandemia tem suscitado há uns 100 dias.

Tem algo que aprendi conversando com meu esposo: o que podemos fazer dentro do "padrão pandemia?". Ou seja, não há mais as condições de realização das coisas, que havia antes. Nossa exigência sobre o fazer, precisou ser reduzida, diminuir o "padrão" de cobrança.

Agora é o que é possível ser feito!

Surge então o selo de certificação de gestão da qualidade ISO 2020. Esse selo não é para dizer que o que é feito nesse período tem qualidade inferior. Não é isso. Até porque tem trabalhos crescendo em qualidade e originalidade na entrega. É um ISO relativo ao Modo de Produção. 

O sistema de realização não tem mais como se reduzir a critérios como quantidade de funcionários ou matérias primas, ou da organização em escalas produtivas. 

É sobre a vida.
É sobre o fazer.
É sobre a morte.

Nesse trio, há o sentir, o ser e o viver, em meio à mudanças não planejadas. Seja para quem está em teletrabalho ou quem está na sua atividade fora de casa.

Convido a fazermos um olhar sistêmico sobre si e sobre o mundo, não reduzindo em culpas e auto-cobranças individuais.

O "padrão pandemia" desse ISO 2020 indica reduzir a auto-cobrança sobre um processo que, antes, tinha uma ilusão de estar "sob controle". 

Talvez estivessem mais automatizados, mecânicos e fora do nosso corpo. E assim os sentidos estavam reduzidos. Antes, mesmo que tivéssemos recebido uma notícia triste, não era possível sentir muito, não tinha esse tempo previsto na hora laboral. 

Agora o sentir ganhou lugar. Pelos ouvidos, olhos ou pele, ou de quem você sente falta, por não ver, ouvir nem tocar. A atenção sobre onde encosto minhas mãos, a tensão ao se aproximar dos outros, a intensificação da necessidade de respirar por trás da máscara. A dor nas costas, a dor de cabeça, a cólica, ganham espaço e intensidade. 

 O ISO 2020 tem distância do número 9001. Está longe. Precisamos assumir as mudanças, sem se cobrar uma produtividade insana. O produzir tem como tomar formas mais humanas. Estratégias de comunicação, tecnologia e escuta, para adaptar-se. 
O fazer está diferente. O sentir está mais forte. "Ser ou não ser, eis a questão." Para ser, basta acordar todo dia? 
Na minha casa ou na sua, cada um tem formas para entender minhas palavras. 
As interrupções a mais onde tem bebês, ou as interrupções a menos que também afetam quem está só.

Não há maiores ou menores desafios, há vidas vivendo da forma que podem - ou que são autorizadas a fazer de acordo com seu trabalho. E há mortes. Um luto coletivo, notícias de longe ou perto, e que também não estão sob nosso controle.

A auto-cobrança sobre o "processo produtivo" de cada um, nesses meses, pode seguir o ISO 2020. Talvez seja um selo de qualidade superior em humanidade: incerto, intenso e no seu tempo!

Gisele Cristina Voss
escrita aos 103 dias de quarentena.

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