Os “caprichos” quando nasce um irmão


 Ao receber emprestado um livro, abri uma página "ao acaso" e foi justamente neste trecho, que agora vou compartilhar neste blog... 
 Estou gestando minha segunda filha, e ler algo tão coerente e sensível sobre o nascimento de um irmão foi um presente!

TRECHO DO LIVRO: A MATERNIDADE E O ENCONTRO COM SUA PRÓPRIA SOMBRA – LAURA GUTMAN.

CAPÍTULO 9 – OS LIMITES E A COMUNICAÇÃO.

"Os “caprichos” quando nasce um irmão

         Os adultos partem do preconceito de que uma criança vai, necessariamente, sentir ciúmes do irmão que nasce. Entao, qualquer atitude, incômodo, tristeza ou comportamento desembocará na interpretação previsível dos ciúmes. No entanto, aprende-se a sentir ciúmes (a sobrar) ou aprende-se a amar (a somar) de acordo com os modelos de comunicacao. E os pais precisam refletir a respeito.
         Antes de especular sobre as crianças, é necessário revisar e reconhecer os próprios sentimentos ambivalentes gerados pelo nascimento de outro filho – assim como qualquer mudança significativa em nossa vida – e perceber nossas fantasias sobre a dificuldade de amar vários filhos de maneira equitativa. Por esta razão, a doutora Françoise Dolto, pediatra e psicanalista francesa já falecida, costumava dizer que “o coração das mães é multiplicado a cada filho que nasce”. Eram palavras pertinentes diante da sensação das mães de não serem capazes de amar a outro filho com a mesma intensidade com que amavam seu pequeno tesouro já nascido.
         Essa construção imaginária que as mulheres tramam com tanta frequência não se sustenta na realidade, mas sim nos temores primários e no desconhecimento que surgem em cada nova experiência. Às vezes, a sensação de prazer está ligada ao medo, à alegria, à preocupação, etc. Estes sentimentos contraditórios são legítimos. O problema reside em elas tenderem a reconhecer em si mesmas apenas nos seus aspectos positivos, atribuindo aos filhos os negativos. Desta maneira, aquele que sente ciúmes é sempre o outro, o que se comporta mal ou está impaciente e irritado é a criança. Por outro lado, espera-se que as mães estejam sempre felizes, radiantes e satisfeitas. Fica claro que projetam sua polaridade, localizando o polo negativo no irmão maior que incomoda.
         Compreendendo que se trata de um funcionamento familiar, seria mais saudável que todos nos encarregássemos da parte de alegria e da parte de frustração que cabem a cada um diante do nascimento de um novo membro da família. Porque todos têm o direito de sentir o que sentem: as mães também têm raiva ou sentem desamparo mesmo nos momentos que seus filhos maiores explodam de alegria, mesmo quando se espera deles o contrário.
         Bem, o que acontece quando uma criança “fica insuportável” depois do nascimento do irmão? Precisa de limites? Está sofrendo?
         A tendência dos adultos é a de satisfazê-la a qualquer preço para que não sofra. Lamentavelmente, deparamos com resultados opostos aos esperados: nunca está satisfeita, chora, quer mais do mesmo. Então, nos apressamos a pôr o rótulo: “está com ciúme”. Na realidade, ainda não a ajudamos a ocupar o lugar que lhe cabe: o de irmão mais velho com condições específicas para cuidar, atender e amar o bebê.
         É imprescindível ensinar nossos filhos a oferecer, a cuidar dos demais de acordo com as capacidades de cada um. Não há maneira de viver a felicidade com maior plenitude. Quando compreende que tem algo a oferecer, se transforma em uma criança feliz. Quando a felicidade compartilhada une os sentimentos da família e todos se preocupam, prioritariamente, com o bem-estar do menor, então todos se sentem felizes. Os grandes e os pequenos.
         O nascimento de um bebê permite aos adultos exercer a tarefa de fortalecer a irmandade, colocando os irmãos maiores no lugar destacado que ocupam na visão dos menores. Esse lugar preferencial é, em geral, de admiração. Por isso, é indispensável privilegiar essa posição fazendo com que brotem nas crianças sentimentos como solidariedade e amor e também a disposição pessoal de ajudar e acompanhar os mais necessitados (nesse caso, o bebe que acaba de nascer), em uma atitude de caridade. Em vez de procurar sempre o que a criança quer receber, saturando-a com presentes e atendendo a qualquer pedido desmedido, devemos colocá-la em posição de oferecer.
         Os irmãos permitem que exercitemos a arte de amar porque são as pessoas mais próximas em nossa vida afetiva. Amar é dar, é acompanhar o outro em seu caminho de crescimento pessoal. E uma criança de 2 anos já é capaz desenvolver sua de amar sendo útil e realizando pequenas tarefas em prol do irmão ou tornando mais ameno os afazeres domésticos ou as vicissitudes emocionais da mãe. E são os pais que devem priorizar o desenvolvimento dessa virtude.
         Então, ao invés de afastar as crianças para que não incomodem, devemos integrá-las, pedindo-lhes uma colaboração mínima, como trazer uma fralda, segurar por um instante o bebê, ajudar a pôr a mesa, avisar se o neném acordou, explicar aos parentes que a mãe está ocupada etc. As crianças costumam cumprir suas tarefas com perfeição.
         É a partir do nascimento dos irmãos que nossa generosidade é ativada. É o momento propício para desenvolver esta virtude tão rara entre nós. Olhemos ao redor e veremos milhares de pessoas que vivem ingerindo antidepressivos para enfrentar a vida. Vou lhes contar um segredo: a depressão é a doença do egoísmo, só pode ser curada pela generosidade, que se manifesta quando nos interessamos por alguém, quando fazemos ativamente um favor pelo simples motivo de fazer, quando nos lembramos de alguém necessitado, quando deixamos de obrigar nosso parentes e amigos a cuidar de nossas dores. A generosidade deve ser apreendida na infância, assim ficamos com o caminho aplanado e o coração disposto.
         (...)"


E o texto continua com belas colocações, de se sentir ou de se pensar... mas como o livro todo é incrível, paro a transcrição aqui e lhe deixo a vontade de ler o livro na íntegra!
http://www.lauragutman.com.ar/libros/a-maternidade-e-o-encontro-com-a-propria-sombra-brasil/


Comentários

  1. Muito bom, Gisele! Quando minha segunda e meu caçula nasceram, procurei me lembrar de quando e como eu tive que lidar com o nascimento dos meus irmãos (3 depois de mim). Cada irmão foi uma experiência diferente, como cada filho meu também teve reações diferentes. No fim das contas, depois de embates, reposicionamentos e o ciúme genuíno também, concluo que... irmão é bom demais!!! (e que bom que meus filhos concordam!)
    Beijos, obrigada pela visita no blog. Adorei o seu!
    Marusia

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    1. Olá Marusia! que bom! realmente muitos momentos da vida se pensarmos em como nos sentimos naquela mesma fase, facilita! grata pelo retorno

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