Na relação com as crianças e jovens, nós
adultos temos grandes tentações de agir como poderosos possuidores dos saberes
que eles, pobres criaturas inocentes, ainda não sabem. Essa é uma das tentações
que deveria entrar como a principal das piores, acima dos 7 pecados capitais.
Neste momento histórico, você tem a chance de ver o hoje assim, e as crianças
têm o privilégio de verem do jeito deles. Sinto muito informar, mas não há como
ser possuidor de um saber maior só por ter mais tempo de vida. São simplesmente
saberes diferentes, e olhares de tempos outros.
Outra tentação está em ver todas as ações
dos pequenos, como erradas, agitadas demais, hiperativas. Para sua decepção,
caro leitor, o que acontece ali são atitudes, são o fazer no mundo, são as
ferramentas para adquirir seu espaço. Não é dizer que eles podem fazer tudo.
Não é esse o objetivo. Mas ela pode sim fazer o que o menino de 4 anos fez
agora, aqui do lado do sofá em que estou sentada. Os pais caminharam em linha
reta do portão até a porta, e ele passou por baixo de um fio ao lado deles,
desviou os postes e chegou à mesma porta, juntando-se à mãe. Ele fez mal a
alguém? Não. Era um local perigoso, com muitas pessoas ou carros passando? Não.
Se machucou? Não. Então, qual o problema em “ter que fazer arte” e “inventar moda”
ao invés de caminhar retinho naqueles 40 segundos?
Aí está a vantagem deles sobre nós.
...
Minhas ideias pararam observando aquele
menino, que agora descobria a porta de vidro que ninguém estava usando no
momento. Estava testando que ele podia abrir para os dois lados, e ver do outro
lado mesmo sem abrir! O pai, então, mostrou o que sabia rapidamente, achou
suficiente, e sem falar algo - que eu tenha visto - puxa o filho de volta pela
orelha. E o menino, com olhos .... (cara de quem não entendeu muito), coça a
orelha, senta, e olha a porta longe.
Um outro menino senta aqui do meu lado,
aceita o que a mãe diz com carinho, e fica tranquilo ali, explicando segundos
depois: “Quero ir lá brincar com o fulano...” E alguns segundos depois já quer
subir de volta nas costas da mãe, que delicadamente o retira e pede pra ficar
no chão enquanto ela está trabalhando. Assim ele busca outra atividade e
descobre que segurar as canetas para ela, enquanto ela organiza um evento, é
bom. E ali se diverte.
E meu raciocínio busca quais foram as
minhas descobertas do dia, até aquele instante... Para eu não ficar tão em
desvantagem em relação a eles. Afinal, a gente divide o mesmo mundo... ou não?
Digitado dia 31-03-09 20:18

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